XÔ!
Escrevia a lápis na folha do caderno novo.
No erro, passava a borracha branca e a minha história continuava.
Escrevia à caneta.
No erro, passava a língua na ponta da borracha branca e a folha rasgava.
A borracha azul e vermelha, na minha mão, também não funcionava. Minha história ficava com um borrão imenso, ou com buraco na folha.
Destruí-la era uma opção, mas daria um trabalho danado para reescrever.
Mas havia sim, quem conseguisse apagar o manuscrito à caneta. Ficava o borrão, mas nada que prejudicasse a folha.
Anos mais tarde, peguei alguns desses cadernos.
Notei que os manuscritos a lápis, o tempo cuidou de apagar. À caneta, parecia ter sido escrito ontem.
Uma corrente da psicologia, defende a tese de que, tentar apagar completamente da memória as lembranças que nos causam dor, seja um dos fatores de desenvolvimento do Mal de Alzheimer.
Uma violência que tenhamos sofrido, uma vida de penúria, uma traição e por aí vai!
Enquanto ouvia meu interlocutor, fiz a analogia entre esta tese e o nosso cérebro como sendo uma folha de caderno.
Ao menos pra mim, fez todo sentido.
Lutar contra as lembranças, querer apagá-las a qualquer custo, é como querer passar a borracha no que foi escrito à tinta. O cérebro (a folha) poderá ser danificado.
Que ótima notícia!
Não terei Alzheimer, já que posso continuar com as lembranças que teimam me acompanhar, que me magoam, que faz eu querer vingança...Certo ?
Errado!!! Porque isso dá câncer!
Então tenho duas “excelentes” opções: morrer enforcado ou apedrejado?
Nenhuma delas.
É possível sim apagar a tinta sem destruir a folha.
Eu não preciso (nem devo) estar junto de alguém que me fez mal.
Isso nós fazemos com os amigos, com aqueles que nos querem bem.
O que devemos fazer é tirar o rancor que essas lembranças (ou quem as provocou) nos causam sem que esqueçamos os fatos completamente. Eles nos servirão para nossa evolução.
Isso se chama perdão.
Perdoar não significa fazer do seu algoz, um amigo íntimo. Não que seja errado dar outra chance, é desnecessário.
Mas entender que tudo que passamos nessa vida, foi necessário.
A isso, dá-se o nome de resiliência.
Certamente, com Alzheimer, eu não morro!